Os biomas brasileiros – Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal, Caatinga e Pampa – representam paisagens ecológicas diversas, cada qual com características climáticas, hidrológicas e vegetacionais muito distintas. Essas diferenças moldam também o comportamento e a ecologia de vetores de doenças, como mosquitos, e, por consequência, os riscos epidemiológicos em cada região.
Compreender como os biomas influenciam a abundância e distribuição desses vetores é essencial para estratégias eficazes de vigilância entomológica e controle de doenças.
Fatores bioclimáticos determinantes na distribuição de vetores
A tríade essencial: temperatura, umidade e pluviosidade como catalisadores do ciclo de vida
Mosquitos vetores, dos gêneros Anopheles, Aedes e Culex, têm sua ecologia fortemente influenciada por variáveis climáticas. A temperatura acelera o desenvolvimento das larvas e pupas, reduzindo o tempo de geração; já a umidade e a pluviosidade regulam a disponibilidade de água para os criadouros, sejam artificiais ou naturais.
Por exemplo, em biomas tropicais úmidos, a alta pluviosidade durante a estação chuvosa pode gerar abundância de criadouros temporários, aumentando a densidade de larvas. Por outro lado, em períodos mais secos ou em biomas com sazonalidade marcada – muito frios ou muito quentes -, os mosquitos podem depender de criadouros naturais persistentes.
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O papel da vegetação e da hidrografia no surgimento de criadouros naturais
A vegetação e a hidrografia de cada bioma fornecem habitats específicos para o desenvolvimento das fases imaturas dos mosquitos, como mostram estudos de ecologia de paisagem.
Plantas com cavidades que acumulam água, ocos de árvores ou folhas que formam poças criam um pequeno ecossistema – chamado de fitotelmata – que servem de criadouros naturais para os vetores. Em biomas como a Mata Atlântica, por exemplo, o mosquito Anopheles (Kerteszia) cruzii deposita seus ovos em bromélias.
Além disso, corpos d’água permanentes ou temporários (rios, lagoas, margens alagáveis) interagem com a vegetação para criar micro-habitats favoráveis à oviposição, desenvolvimento larval e repouso dos adultos.
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O impacto da antropização e da fragmentação de habitats na mudança de comportamento dos vetores
A modificação da paisagem, seja por meio do desmatamento, urbanização, expansão agrícola ou mineração, altera a dinâmica dos vetores. A fragmentação dos habitats naturais pode aumentar o contato entre vetores silvestres e populações humanas, favorecendo a transmissão de doenças.
Um estudo recente na Amazônia mostrou que áreas com cobertura florestal intermediária (cerca de 50% de desmatamento) têm risco mais alto de transmissão de malária por Anopheles, por favorecer a dominância de certas espécies vetoras de doenças.
Além disso, mudanças no uso do solo podem simplificar a comunidade de mosquitos, reduzindo a riqueza de espécies. Sob a ótica da Saúde Única (One Health), essa perda de biodiversidade elimina competidores naturais e favorece a proliferação e dominância de espécies mais bem adaptadas a ambientes artificiais, como mosquitos urbanos e semiurbanos.
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Amazônia e Pantanal: os cenários de maior risco silvestre
Amazônia
Na Amazônia, o elevado regime pluviométrico, a vegetação densa e a presença de grandes corpos d’água permanentes criam condições ideais para vetores silvestres.
De acordo com o Ministério da Saúde, a região amazônica concentra 99% dos casos de Malária no Brasil. O principal vetor da malária na região é o Anopheles darlingi, que se beneficia dessas condições para sua proliferação. Mas um levantamento feito por pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) em terra Yanomami no Amazonas e em Roraima – região com alto índice da doença – mostrou uma grande diversidade de espécies de Anopheles, com diferentes hábitos de reprodução e alimentação, o que torna o controle epidemiológico dessa doença mais complexo.
Outros fatores contribuem para o alto índice da doença na região, como o crescimento de assentamentos e atividades econômicas como a mineração – que criam novos criadouros artificiais ou modificam os naturais -, e também a fragilidade do sistema de saúde da região, que dificulta os esforços de contenção da transmissão.
A febre amarela silvestre é outra doença endêmica dessa região. Mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes são os vetores mais importantes da doença, infectando principalmente primatas ou primatas não humanos. Mas, mesmo nos casos de mortes de primatas não humanos (como macacos e símios), a notificação é compulsória, devendo ser feita em até 24 horas às autoridades competentes após qualquer evento suspeito.
Pantanal
No Pantanal, a dinâmica hídrica é extremamente marcada pelo pulso de inundação: durante a estação das chuvas, grandes áreas alagam, criando extensas zonas úmidas que se retraem na seca. Um estudo do Instituto Oswaldo Cruz apontou um crescimento da população de mosquitos do gênero Anopheles no período de transição entre uma espécie e outra.
Os culicíneos (Culex sp.) também são encontrados em grande número no Pantanal, especialmente na estação de cheia, entre os meses de novembro e maio. As pessoas que adentram a região nesta época – como turistas aproveitando férias de fim/início de ano – estão sujeitas a uma exposição maior aos vetores de arbovírus enzoóticos, como o Vírus do Nilo Ocidental (WNV), detectado neste outro estudo da Fiocruz.
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Mata Atlântica e Cerrado: risco na interface silvestre-urbana
Mata Atlântica
Na Mata Atlântica, a presença de bromélias é um aspecto ecológico fundamental para a proliferação de mosquitos. Espécies como a Anopheles cruzii (subgênero Kerteszia), transmissor da malária, depositam seus ovos nas axilas dessas plantas. A doença chegou a ser conhecida como “bromélia-malária” por causa disso.
Estudos históricos e epidemiológicos mostraram que essa “malária de bromélia” pode ter componente zoonótico: há evidências de primatas não humanos como reservatórios, e o parasita transmite-se entre simianos e humanos via An. cruzii.
Além disso, a modificação do uso do solo (desmatamento, urbanização) pode facilitar a aproximação entre populações humanas e vetores, aumentando o risco de reemergência.
A presença de outra espécie de mosquito na Mata Atlântica também preocupa: a Aedes albopictus, vetor de arboviroses como dengue, febre amarela e encefalite eqüina venezuelana. A presença registrada na região representa um risco de exposição da população e de uma possível epidemia.
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Cerrado
O Cerrado, com seu clima sazonal (períodos secos e chuvosos), representa um bioma de risco particular. Em momentos de chuva, surgem muitos criadouros temporários, enquanto na seca, há adaptações dos vetores para sobreviver em microambientes mais estáveis.
A expansão urbana e agrícola no Cerrado (por exemplo, para pecuária ou lavoura) provoca desmatamento e fragmentação, favorecendo a convivência entre ambientes naturais e humanos. Esta interface pode aumentar a incidência de arboviroses, especialmente em áreas periféricas ou de transição. Além disso, o uso do solo e as mudanças ambientais influenciam diretamente a comunidade de mosquitos, sua distribuição e os potenciais surtos.
Estudos de entomologia médica em remanescentes de Cerrado já identificaram uma diversidade de mosquitos vetores de doenças como malária, dengue, febre amarela, Zika, chikungunya e filariose (elefantíase), confirmando que esse bioma não é imune ao risco vetorial.
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Caatinga, Pampa e a adaptação dos vetores a extremos climáticos
Caatinga
A Caatinga, caracterizada por clima semiárido, temperaturas elevadas e escassez hídrica, impõe desafios ecológicos para os mosquitos. No entanto, muitos culicídeos desenvolveram estratégias adaptativas: ovos resistentes à desidratação, uso de micro-habitats (bromélias, ocos de árvores ou depressões no solo) para retenção de água, e reprodução rápida após chuvas.
Embora haja menos estudos focados na Caatinga comparado a biomas como Amazônia ou Mata Atlântica, a literatura aponta que, mesmo em períodos secos, pequenos reservatórios naturais ou artificiais podem sustentar populações de vetores, reforçando a necessidade de vigilância entomológica local.
Pampa
O Pampa, bioma subtropical presente no sul do Brasil, tem menor diversidade reconhecida de vetores de grandes arboviroses silvestres comparado a biomas mais úmidos ou tropicais. No entanto, mudanças climáticas e o uso do solo para agricultura e pecuária podem favorecer a adaptação de vetores a temperaturas mais baixas.
A sazonalidade mais marcada (inverno mais frio, verões quentes) pode restringir o número de gerações de mosquitos por ano, mas também favorecer espécies capazes de sobreviver em condições adversas ou em microclimas. A vigilância epidemiológica nessa região é importante para monitorar potenciais adaptações ou introdução de novas espécies vetoras.
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O bioma antrópico: a supremacia do Aedes aegypti no ambiente urbano
Embora os seis biomas brasileiros naturais sejam cruciais para a ecologia vetorial, o ambiente urbano representa um “bioma antrópico” por si só. O Aedes aegypti, vetor de dengue, Zika, chikungunya e febre amarela urbana, prospera especialmente nas cidades, independentemente do bioma circundante.
As razões principais incluem:
- Disponibilidade de criadouros artificiais (pneus, recipientes plásticos, caixas d’água). Não à toa, 75% dos focos de Aedes aegypti estão dentro das casas.
- Proximidade humana, que garante fácil acesso ao sangue para alimentação.
- Climas urbanos mais quentes (ilhas de calor) que aceleram o ciclo biológico do mosquito.
- Falta de saneamento adequado, o que fomenta acúmulo de água estagnada.
Mesmo em biomas naturais ricos, é no ambiente urbano que o risco de arboviroses urbanas é mais evidente. Estratégias de controle focalizadas, como campanhas para eliminar reservatórios de água, são essenciais.
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Gerenciando riscos em diversos biomas
A gestão dos riscos associados a mosquitos vetores exige uma combinação precisa de vigilância entomológica e vigilância epidemiológica, capaz de captar tanto as variações nas populações de insetos quanto os primeiros sinais de circulação de patógenos.
Como cada bioma brasileiro apresenta dinâmica ecológica, climática e paisagística própria, é essencial que as estratégias de monitoramento sejam adaptadas às suas particularidades. Somente com abordagens específicas, sensíveis às características ambientais e socioeconômicas de cada região, é possível antecipar surtos, direcionar ações de controle e reduzir efetivamente o risco de transmissão de doenças.
O uso de sistemas de georreferenciamento para mapear criadouros naturais e artificiais
O uso de ferramentas de georreferenciamento no trabalho de vigilância epidemiológica permite mapear áreas com potencial para criadouros naturais (bromélias, margens de rios, poças) e artificiais (lixeiras, caixas d’água, depósitos plásticos).
Com esses mapas, profissionais de saúde pública podem priorizar locais para vigilância entomológica e intervenções, alocando recursos de forma mais eficiente.
A modelagem preditiva baseada em dados climáticos para antecipar surtos
Modelos preditivos que combinam dados climáticos (temperatura, precipitação), uso do solo e cobertura vegetacional podem antecipar surtos de vetores, identificando janelas temporais de maior risco.
Essas estratégias permitem que gestores de saúde pública adotem medidas preventivas proativas, como nebulização, comunicação à população e campanhas de eliminação de criadouros.
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Conte com o Monitoramento Integrado do Aedes (M.I.Aedes)
Para apoiar a vigilância entomológica e epidemiológica em qualquer bioma, a Ecovec oferece o M.I.Aedes – Monitoramento Integrado do Aedes. Por meio de armadilhas estrategicamente instaladas, o sistema captura fêmeas fecundadas de Aedes aegypti, gera índices entomológicos confiáveis semanalmente e permite a análise laboratorial para detectar a circulação de arbovírus em mosquitos.
Com o M.I.Aedes, gestores públicos recebem dados em tempo real das zonas críticas de infestação, podem avaliar a eficácia das ações de controle e redirecionar esforços onde são realmente necessários, tudo isso com um número reduzido de agentes de campo.
Para implementar uma vigilância inteligente e estratégica no seu município, fale com a Ecovec pelo WhatsApp: (31) 99324-1598 ou demais contatos do Fale Conosco.




