Controle biológico de mosquitos: da pesquisa à aplicação em campo

Controle biológico de mosquitos: da pesquisa à aplicação em campo

O controle de mosquitos vetores de doenças como dengue, zika, chikungunya e malária é um desafio constante para a saúde pública mundial.

Os métodos químicos sempre dominaram o cenário, mas, com o tempo, surgiram alternativas sustentáveis, capazes de atuar de forma preventiva e menos agressiva ao meio ambiente. Uma dessas estratégias é o controle biológico de mosquitos, que hoje ganha cada vez mais espaço em programas de manejo integrado de vetores.

Fundamentos e modalidades do controle biológico de mosquitos

O controle biológico de mosquitos é uma estratégia que utiliza organismos vivos ou substâncias naturais para reduzir populações de mosquitos. A entomologia, ciência que estuda os insetos, fornece as bases para identificar espécies-alvo, compreender seu ciclo de vida e selecionar inimigos naturais adequados para cada contexto, na chamada vigilância entomológica.

Diferentemente do controle químico, que tem ação imediata e ampla, o biológico atua de forma direcionada, afetando larvas ou adultos de espécies específicas, minimizando impactos sobre outros organismos e sobre o meio ambiente.

Benefícios do controle biológico para a saúde pública e o meio ambiente

  • Redução da exposição da população a inseticidas químicos.
  • Preservação da biodiversidade, já que muitos agentes biológicos são seletivos.
  • Sustentabilidade a longo prazo, pois diminui a pressão seletiva para resistência dos mosquitos.
  • Aplicação integrada em programas de manejo, reforçando a prevenção de arboviroses.

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Comparativo técnico: controle biológico vs. controle químico

Apesar dos benefícios, o controle biológico não é uma solução universal, podendo não ser o mais indicado ou eficaz, dependendo da situação.

  • Controle biológico: mais indicado para ações preventivas, com resultados gradativos e sustentáveis. Ideal em cenários de monitoramento contínuo, como comunidades urbanas com alto risco de infestação.
  • Controle químico: essencial em situações de emergência, surtos e alta infestação. Tem ação imediata, mas pode perder eficácia devido à resistência dos mosquitos e impactar outros organismos, além de, no campo, poder deixar resíduos químicos na colheita.

Portanto, a integração dos dois métodos, no chamado Manejo Integrado de Vetores (MIV), é a forma mais eficaz de proteger a saúde pública em áreas urbanas e rurais.

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Agentes de controle biológico de mosquitos e suas aplicações

A ciência tem avançado significativamente no desenvolvimento de agentes biológicos para o combate a mosquitos. Entre os mais relevantes, destacam-se microrganismos, predadores naturais, insetos modificados e fungos entomopatogênicos.

Microrganismos: o papel da bactéria Bacillus thuringiensis israelensis (Bti) no controle larvário

O Bacillus thuringiensis israelensis (Bti) é uma bactéria utilizada mundialmente no combate a larvas de mosquitos. No Brasil, seu uso é recomendado pelo Ministério da Saúde.

Quando em contato com a água, libera substâncias que destroem o sistema digestivo das larvas, levando-as à morte.

  • Alta seletividade: afeta apenas larvas de dípteros (como Aedes aegypti e Culex).
  • Segurança: não apresenta riscos para humanos, animais ou plantas.
  • Versatilidade: pode ser aplicado em recipientes urbanos, áreas alagadas e até em grandes reservatórios de água potável, sem comprometer a saúde de pessoas e animais.

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Predadores naturais: a utilização de peixes larvófagos e a pesquisa com o mosquito Toxorhynchites

Peixes como guppies (Poecilia reticulata) e tilápias são exemplos de organismos usados para devorar larvas de mosquitos em ambientes aquáticos.

Outro exemplo é o mosquito Toxorhynchites, conhecido como “mosquito-elefante”. As larvas dessa espécie se alimentam de larvas de outros mosquitos, incluindo Aedes aegypti.

  • Não picam humanos, já que os adultos se alimentam apenas de néctar.
  • Podem ser criados e liberados em áreas urbanas, oferecendo uma alternativa natural para reduzir populações de mosquitos vetores.

Insetos modificados: a tecnologia Wolbachia e sua estratégia no controle populacional do Aedes aegypti

A bactéria Wolbachia é introduzida em populações de Aedes aegypti para reduzir sua capacidade de transmitir vírus como dengue, zika e chikungunya.

  • A infecção pela Wolbachia impede que os vírus se multipliquem dentro do mosquito.
  • Mosquitos infectados transmitem a bactéria naturalmente para sua prole, tornando a estratégia autossustentável.
  • O Método Wolbachia já está em uso em diversos países, inclusive no Brasil, e tem mostrado impacto significativo na redução de arboviroses.

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Fungos entomopatogênicos: a ação do Metarhizium anisopliae e de outros fungos como alternativa promissora

Fungos como Metarhizium anisopliae e Beauveria bassiana infectam mosquitos adultos, reduzindo sua sobrevivência e, consequentemente, sua capacidade de transmissão de doenças.

  • Podem ser aplicados em armadilhas ou superfícies atrativas para mosquitos.
  • São considerados aliados promissores para integração em programas de controle biológico.

Estudo de casos: pesquisas brasileiras de destaque

O Brasil tem desempenhado um papel de protagonismo no desenvolvimento e aplicação de soluções de controle biológico de mosquitos. Confira alguns dos principais casos:

O projeto da Embrapa e a validação do uso de Bti em comunidades

A Embrapa desenvolveu um trabalho pioneiro de validação do uso de bioinseticidas à base de Bacillus thuringiensis israelensis (Bti) no combate ao Aedes aegypti na cidade de São Sebastião (DF).

A escolha de São Sebastião como área-piloto se deu por seu histórico de surtos de dengue no início dos anos 2000 e altos índices de infestação predial. O projeto não se restringiu à aplicação do bioinseticida: envolveu ações integradas de mobilização social, educação em saúde e mutirões de limpeza. Antes da distribuição do produto, 30 toneladas de lixo e entulho foram retirados da cidade. Além disso, agentes comunitários, líderes locais, professores e estudantes receberam capacitação para orientar a população.

O biolarvicida foi entregue em frascos de 30 ml, suficientes para dois meses de aplicação. Mais de 17 mil residências receberam o produto acompanhado de instruções simples: aplicar uma gota a cada 15 dias em recipientes com água parada (vasos de plantas, ralos, calhas, piscinas etc.). A distribuição alcançou mais de 90% das famílias, incluindo a área rural.

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Os resultados foram expressivos: o Índice de Infestação Predial (IIP), que estava em 2,58 no início do projeto (dezembro de 2006), caiu para 0,17 em junho de 2007, um valor considerado de baixo risco epidemiológico pela Organização Mundial da Saúde. Além disso, o número de casos confirmados de dengue ficou restrito e não houve óbitos no período.

Esse caso demonstrou que, quando aliados à participação comunitária, os biolarvicidas à base de Bti podem ser uma ferramenta eficaz e sustentável para o controle biológico de mosquitos, reduzindo a dependência de inseticidas químicos e envolvendo a sociedade no combate às arboviroses.

O Bt-horus foi utilizado também nas cidades de Três Lagoas (MS), São Sebastião (DF), Rio das Ostras (RJ) e Sorriso (MT), sempre com resultados positivos.

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O trabalho do INPA com o mosquito predador Toxorhynchites

O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) tem investigado o potencial do chamado “mosquito-elefante” (Toxorhynchites spp.) como aliado no combate ao Aedes aegypti. Ao contrário das espécies transmissoras de doenças, os adultos de Toxorhynchites não picam humanos, alimentando-se apenas de néctar, enquanto suas larvas são vorazes predadoras de outros mosquitos.

Em estudos conduzidos em laboratório, pesquisadores observaram que uma única larva de Toxorhynchites pode consumir mais de 120 larvas de Aedes ao longo de seu desenvolvimento, o que revela um forte potencial para reduzir populações em criadouros. Experimentos de campo em Manaus também avaliaram a preferência de oviposição desses mosquitos em criadouros artificiais de diferentes cores, ajudando a identificar estratégias mais eficientes para sua atração e manutenção.

Mosquito Toxorhynchites (mosquito-elefante): grande e colorido, se destaca por não picar humanos nem transmitirem doenças.

Os resultados apontam que a presença de vegetação e ambientes adequados aumenta a taxa de reprodução e permanência dos predadores, sugerindo que sua eficácia está ligada não apenas à liberação em campo, mas também à qualidade dos habitats disponíveis.

Apesar dos avanços, o INPA destaca desafios importantes: a criação de colônias em escala, a sobrevivência das larvas em ambientes urbanos e a necessidade de integração dessa estratégia a outras formas de controle, como o manejo ambiental e o monitoramento epidemiológico.

Mesmo com limitações, a pesquisa reforça o papel dos inimigos naturais no controle biológico de mosquitos e abre caminho para que o Toxorhynchites seja considerado em programas de manejo integrado de vetores, especialmente em regiões onde a resistência a inseticidas químicos compromete a eficácia das estratégias tradicionais.

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O Método Wolbachia da Fiocruz e o impacto na redução de casos de arboviroses

A Fiocruz tem registrado resultados expressivos com o uso do método Wolbachia. Nele, a bactéria Wolbachia é inserida em populações de Aedes aegypti para reduzir sua capacidade de transmissão de arboviroses (dengue, zika, chikungunya). Quando liberados, esses mosquitos infectados (“wolbitos”) se reproduzem com os mosquitos selvagens, espalhando a Wolbachia para gerações seguintes, tornando o método autossustentável.

Recentemente, o método foi implementado nos estados de Goiás e no Distrito Federal, com aporte de recursos do Ministério da Saúde para três municípios que vêm enfrentando elevada transmissão de dengue, e também em municípios de Santa Catarina.

Um marco importante da implementação deste método como parte da política nacional de controle de arboviroses foi a inauguração da maior biofábrica do mundo para produção em larga escala de mosquitos com Wolbachia, em Curitiba (PR), em julho de 2025.

Essa fábrica, denominada Wolbito do Brasil, tem capacidade para produzir cerca de 100 milhões de ovos por semana, o que permite ampliar enormemente a cobertura do método. Com isso, espera-se alcançar 140 milhões de pessoas em aproximadamente 40 municípios com maiores incidências de arboviroses nos próximos anos.

Também em julho deste ano, São Paulo ganhou uma biofábrica de Wolbachia em Presidente Prudente, quando também iniciou as liberações dos mosquitos Aedes aegypti com a bactéria no município. A produção local permitirá contribuir para reduzir os custos logísticos e aumentar a rapidez da implantação do método em áreas urbanas.

Apesar do sucesso crescente, os resultados mais robustos (em termos de redução de casos de dengue, hospitalizações etc.) tendem a se confirmar ao longo de 1 a 2 anos após as solturas, e dependem também de forte engajamento comunitário, ações de vigilância epidemiológica, eliminação de criadouros e manutenção de outras medidas de controle vetorial paralelas.

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Desafios na implementação de programas de controle biológico de vetores

Apesar do potencial, o controle biológico enfrenta barreiras para sua implementação em larga escala:

  • Custo e logística de produção e distribuição: produzir e distribuir microrganismos, mosquitos modificados ou predadores naturais em larga escala demanda infraestrutura robusta, custos significativos e tempo de planejamento.
  • Aceitação pública: métodos como o uso de Bti em criadouros domésticos exigem forte engajamento da população. Além disso, pode ser necessário investir em campanhas educativas para explicar que, por exemplo, liberar mosquitos com Wolbachia não é um risco à população.
  • Monitoramento e integração com sistemas de vigilância epidemiológica: a eficácia do controle biológico depende ainda de acompanhamento contínuo, exigindo o trabalho de vários agentes e estratégias de manejo integrado.

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O papel da tecnologia na vigilância de vetores

O controle biológico de mosquitos representa uma alternativa sustentável e inovadora no combate às arboviroses. Combinado a tecnologias de monitoramento e ao controle químico quando necessário, compõe um arsenal poderoso dentro do Manejo Integrado de Vetores.

A união entre ciência biológica e tecnologia, com sistemas de inteligência de dados, permite identificar focos de infestação em tempo real, garante a tomada de decisão baseada em dados, acelera a resposta a surtos e aumenta a eficácia das medidas preventivas.

O MI-Aedes, desenvolvido pela Ecovec, é uma das soluções mais completas para o monitoramento do Aedes aegypti. Por meio de armadilhas inteligentes instaladas estrategicamente na cidade, o sistema coleta mosquitos semanalmente, municiando gestores de saúde pública com dados fundamentais para o controle dos vetores.

Saiba mais entrando em contato com a Ecovec através do WhatsApp (31) 99324-1598 ou pelo Fale Conosco.

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