Em regiões tropicais como o Brasil, o uso de repelentes de insetos é uma ferramenta essencial de proteção individual contra picadas de mosquitos que transmitem doenças como dengue, zika, chikungunya, malária e febre amarela.
Porém, entre tantas opções disponíveis no mercado, muitas pessoas ainda ficam na dúvida: como funcionam esses produtos? Quais são os melhores ingredientes ativos? Qual devo escolher para mim e para minha família?
Neste artigo, vamos explicar como os repelentes químicos agem contra os mosquitos e qual das três substâncias aprovadas pela Anvisa – DEET, Icaridina e IR3535 – é mais recomendada para cada situação e público.
Como funcionam os repelentes químicos?
Antes de explorarmos a diferença entre cada produto, é importante compreender o efeito que os repelentes químicos têm nos insetos.
Os mosquitos usam um complexo sistema sensorial para localizar seus hospedeiros. Seus órgãos olfativos captam sinais químicos no ar, como dióxido de carbono (CO₂), ácido lático e outros componentes do odor humano. Essas moléculas se ligam a receptores nas antenas do mosquito, gerando um sinal elétrico que guia o inseto até o alvo. Os repelentes interferem nesse processo químico de percepção, dificultando que os mosquitos detectem e sejam atraídos pelo odor humano.
Quando aplicamos um repelente químico na pele, ele evapora e cria ao redor do corpo uma espécie de barreira de vapor. Essa nuvem de moléculas não mata o mosquito, mas confunde seus receptores sensoriais, modificando ou ocultando o odor natural da pele humana e até mesmo ativando respostas de repulsa nos nervos olfativos, desencorajando a aproximação.
É possível obter esse efeito utilizando diferentes substâncias químicas na formulação do repelente. Chamadas de princípios ativos, elas são incorporadas à fórmula do spray, loção ou creme para oferecer proteção. A eficácia de um repelente depende da natureza desses princípios ativos e de sua concentração na formulação.
Os mais utilizados são o DEET, a Icaridina e o IR3535, e vamos entrar em detalhes sobre cada um deles adiante. Existem ainda produtos que têm como substância ativa compostos naturais, como extrato vegetal ou o óleo de plantas do gênero Cymbopogon (citronela), mas esses não são recomendados pela Anvisa como eficazes contra mosquitos transmissores de arboviroses, por falta de comprovação científica.
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Um repelente pode ter dois ou mais princípios ativos?
Tecnicamente, é possível formular um produto com mais de um princípio ativo repelente. Porém, na prática, isso quase nunca é feito por motivos importantes:
- Complexidade regulatória e testes: Para aprovação pela Anvisa (assim como por outras agências internacionais), cada formulação deve passar por testes de eficácia e segurança. Testar uma mistura de dois ativos diferentes aumenta muito a complexidade e o custo desses ensaios.
- Risco de reações adversas: Combinar substâncias químicas diferentes pode aumentar o risco de irritação ou alergias na pele, sobretudo em peles sensíveis.
- Eficácia redundante: Muitos princípios ativos já protegem contra os mesmos insetos; combinar dois deles pode não ter um aumento significativo de efeito ou duração.
Por isso, a maioria dos repelentes de uso humano contém apenas um princípio ativo repelente.
As indicações da Anvisa: DEET, Icaridina e IR3535
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) classifica os repelentes de uso tópico como “cosméticos com ação repelente”.
Os princípios ativos permitidos pela Anvisa são o DEET (N-N-dietil-metatoluamida ou Dietiltoluamida), a Icaridina (também chamada de Picaridina ou KBR3023) e o IR3535 (Etil Butilacetilaminopropionato ou EBAAP). Estes são os recomendados pela Anvisa contra mosquitos como o Aedes aegypti, transmissor de dengue, zika e chikungunya. Saiba mais sobre cada um deles a seguir.
DEET (Dietiltoluamida)
O DEET é o princípio ativo repelente mais conhecido e utilizado no mundo. A substância foi desenvolvida na década de 1940 pelo exército dos EUA, durante a Segunda Guerra Mundial, e passou a ter uso civil a partir da década seguinte, mostrando-se eficaz para repelir insetos hematófagos como mosquitos, pulgas e carrapatos.
Um ponto importante sobre o DEET é a relação entre concentração e tempo de proteção. Diferentemente do que muitos consumidores imaginam, concentrações mais altas não tornam o produto “mais forte” ou mais eficiente em repelir o mosquito, mas apenas prolongam o tempo durante o qual o princípio ativo permanece ativo sobre a pele.
- Concentrações menores (ex.: 5 – 10%) conferem proteção por duas a três horas.
- Concentrações mais altas (15 – 30%) aumentam o tempo de proteção para cinco a seis horas.
Entretanto, estudos mostram que aumentar a concentração para valores acima de 50% não tem efeito no prolongamento do efeito repelente.
Apesar de sua eficácia comprovada, o uso do DEET exige alguns cuidados. O composto pode interagir com determinados materiais, como plásticos, borrachas e tecidos sintéticos, causando danos ou manchas. Além disso, quando utilizado de forma inadequada, em altas concentrações ou com reaplicações excessivas, pode provocar irritação cutânea, especialmente em peles mais sensíveis. Por isso, a leitura atenta do rótulo e o respeito às orientações de uso são fundamentais para garantir segurança e eficácia.
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Icaridina (Picaridina)
A Icaridina, também conhecida como picaridina, é um princípio ativo desenvolvido como alternativa ao DEET, combinando alta eficácia com melhor tolerabilidade cutânea. Sua estrutura química é inspirada em compostos presentes na pimenta, embora o produto final seja praticamente inodoro e não cause ardência na pele.
Em comparação com o DEET, a Icaridina apresenta um tempo de ação com duração superior. Estudos demonstram que formulações com concentrações em torno de 20% podem oferecer proteção de 8 a 10 horas contra mosquitos, incluindo o Aedes aegypti, dependendo das condições ambientais.
Além da longa duração, a Icaridina apresenta vantagens práticas importantes: não danifica plásticos ou tecidos sintéticos, possui odor neutro e costuma ser melhor aceita por usuários que relatam desconforto com o DEET. Por esse conjunto de características, é frequentemente indicada para situações de maior risco epidemiológico, como áreas com transmissão ativa de dengue, zika, chikungunya e malária.
IR3535 (Etil Butilacetilaminopropionato)
O IR3535 é um princípio ativo repelente com perfil de segurança elevado, desenvolvido a partir da estrutura de um aminoácido, o que contribui para sua boa tolerabilidade, embora, em geral, ofereça um tempo de proteção mais curto quando comparado ao DEET e à Icaridina. A duração típica da proteção varia entre 2 e 4 horas, dependendo da concentração e das condições de uso.
Por ser considerado atóxico, o IR3535 costuma ser a primeira opção recomendada para bebês acima de seis meses, gestantes e pessoas com pele sensível. Outro ponto relevante é seu impacto ambiental reduzido, já que o composto apresenta boa biodegradabilidade, característica considerada positiva em estratégias de controle de vetores mais sustentáveis.
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Recomendações de aplicação e segurança para diferentes públicos
Ao escolher um repelente de insetos de uso tópico, considere sempre o usuário e a situação:
- Áreas com risco de dengue, Zika, Chikungunya e malária: para situações de maior risco epidemiológico, especialmente em áreas urbanas tropicais ou florestais, a Icaridina (em concentrações ≥ 20 %) é vista como uma opção altamente eficaz para repelir os mosquitos vetores, oferecendo longa proteção com menor necessidade de reaplicação em comparação com outros ativos.
- Bebês (acima de 6 meses) e gestantes: produtos à base de IR3535 costumam ser a escolha preferida por pediatras devido ao seu perfil de segurança e menor potencial irritativo.
- Melhor custo-benefício: o DEET, especialmente em concentrações moderadas, continua sendo uma opção eficaz e amplamente disponível, desde que usado adequadamente e respeitando recomendações de concentração e reaplicação.
Calor e suor podem exigir reaplicação
O calor e o suor aceleram a evaporação do princípio ativo, reduzindo o tempo de proteção efetiva. Por isso, em ambientes quentes e úmidos, a duração indicada nos rótulos costuma ser menor na prática.
Além disso, lavar, nadar ou suar em excesso também exigem uma reaplicação. Mas é preciso lembrar que o uso do produto precisa seguir as instruções do rótulo. Geralmente, o indicado é realizar apenas de uma a três aplicações ao dia, dependendo da concentração e da exposição.
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Perguntas frequentes sobre repelentes de insetos
Repelentes tópicos: são aplicados na pele.
Repelentes espaciais: (espirais, pastilhas elétricas etc.) atuam no ambiente, mas não substituem o uso na pele em áreas de risco.
A regra geral é aplicar primeiro o protetor solar, esperar secar e então aplicar o repelente.
Produtos que contenham DEET, Icaridina ou IR3535 na fórmula e que sejam registrados na Anvisa são os recomendados. Sempre confira o rótulo e o registro do produto. No site da Anvisa é possível ver todos os produtos registrados na categoria de repelentes tópicos.
Para bebês acima de 6 meses, o IR3535 é frequentemente preferido. Para crianças maiores, Icaridina e DEET em concentrações adequadas também podem ser usados, seguindo orientação de um pediatra.
Em áreas com risco de malária ou alta densidade de mosquitos, recomenda-se repelentes de maior duração, como os que utilizam Icaridina.
Peles sensíveis geralmente se dão melhor com fórmulas à base de IR3535 ou Icaridina sem fragrâncias fortes.
Lembrete importante: o uso de repelentes não é suficiente sozinho
Embora os repelentes sejam ferramentas valiosas de proteção individual, eles não substituem um programa integrado de controle de arboviroses. Medidas complementares incluem:
- Eliminação de criadouros de mosquitos (água parada, recipientes abertos).
- Uso de telas e mosquiteiros.
- Ventilação e ventiladores.
- Vacinação, quando disponível (por exemplo, para febre amarela).
- Vigilância e controle vetorial por parte dos órgãos de saúde.
O uso de repelentes é, portanto, uma solução individual que não consegue conter um surto de arbovirose. Por isso, ações integradas de vigilância, monitoramento e controle de vetores são imprescindíveis para reduzir efetivamente o risco de epidemias.
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